Marta Penter: elogios de um leigo

por Armindo Trevisan

 

Quem deseja ler algo substancial – e brilhantemente expresso - sobre a produção artística de Marta Penter, tem a sorte de contar com duas análises críticas feitas sobre ela, ambas de alto nível: a de Maria Amélia Bulhões e a de Paula Ramos.

Não pretendo, pois, com as presentes anotações dispensar o interessado em artes visuais de lê-las. Desejo desenvolver um ponto-de-vista alternativo, sugerindo algumas abordagens, talvez nem de todo concordes com as intenções da artista

 Confesso que, ao defrontar-me inicialmente com as foto-pinturas de Marta, senti certa decepção: por que não ficar nas fotos em si, de uma originalidade não forçada, notáveis do ponto de vista de seu viés sensual-escultural? Por que “intervenções” pictóricas nelas?

Detendo-me, com maior curiosidade e, sobretudo, com maior sutileza, nessas intervenções, percebi que tais extro-intro-sub-versões tinham um objetivo detectável: a artista queria deslocar a atenção do espectador para alguma coisa mais valiosa do que o apelo erótico.

Ao interfeir, acentuando aqui, escurecendo acolá, criando saliências mediante sombreados em locais estratégicos, Marta produz uma inquietante estranheza nesse mesmo erotismo. Digamos, para tranquilizar o espectador: o erotismo, no fundo, é a perseguição às essências da artista, ainda quando ela, maliciosamente, finja não o ser. Nisso reside seu charme.Porque não  se trata de erotismo midiático, palatável, para revistas do tipo Playboy. Nada disso. Marta possui um alto conceito de seu erotismo. Está consciente de que a graça e o mistério eróticos apontam para outra direção: tais pernas, tais braços, não são os de uma boneca desfrutável, mas de mulheres que possuem  vida, e principalmente, uma memória pontilhada de ocorrências agradáveis ou pungentes. São mulheres que, permanecendo apetecíveis, não se entregam a não ser com suas memórias, suas intrigas, suas angústias, seus dramas, seus anseios, suas frustrações.

Salientemos um ponto: em nenhum momento, Marta trapaceia com seu erotismo. Ele é onipresente. Mas – eis o paradoxo! – não se impõe como o principal, sendo o principal. Esta outra dimensão – digamos à falta de outro termo – humanista de seu erotismo ,incita o espectador a formular-se questões extra-estéticas, a perguntar-se pela volúpia e, também, pelos impasses do sexo. Você, espectador, notou como Marta, não só de-forma  como também trans-forma determinados detalhes da anatomia feminina, por exemplo, os joelhos? Ou...determinadas reentrâncias e saliências  de partes orgânicas que são atraentes?

Sou, afinal, um leigo! Isto é, um apaixonado por artes visuais! Acima de tudo, anteponho à teoria e às sofisticações críticas, meu gosto, mesmo correndo o risco de equivocar-me.

Marta: é um raro prazer encontrar uma artista verdadeira como tu! Alguém que se dispõe a ir além do blábláblá chatíssimo de modernidades e contemporaneidades repetidas.

 
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