A intimidade compartilhada

por Paula Ramos

Uma inegável nostalgia permeia a obra de Marta Penter. A palavra nostalgia, aqui, talvez não pudesse ser mais precisa. Do grego nostos (voltar para casa) e algos (sofrimento), o termo está relacionado a um sofrimento causado pelo anseio irrealizado de retornar à casa. Metaforicamente, podemos relacionar essa casa à nossa pátria, família, ou até mesmo ao nosso passado, distante ou recente – daí a associação corriqueira entre os vocábulos nostalgia e saudade. Numa licença poética, podemos ainda pensar essa casa como um momento suspenso, como fragmentos de memórias, sejam elas individuais ou coletivas, ou também como estilhaços de fantasias e de projeções. Passagens mnemônicas, de prazer e de um certo devaneio, que tantas vezes tentamos resgatar. É nesse ínterim que as imagens criadas por Marta Penter trafegam.

Com formação acadêmica em psicologia, a artista tem se dedicado amorosa e tenazmente às artes visuais desde o princípio dos anos 90. Naquele momento, resolveu atender ao desejo genuíno que a acompanhava desde criança, quando se emocionava ao imaginar o que poderia fazer com as incríveis caixas de 24 ou 36 lápis de cor que então seduziam os escolares. Com o auxílio de experientes professores, começou a descortinar as técnicas e possibilidades pictóricas do pastel, da aquarela e da tinta a óleo. E, consciente do prazer que tal experiência lhe proporcionava, percebeu também que era por meio dela que melhor se expressava. Paulatinamente, uma compreensível insegurança foi dando lugar à convicção de que jamais poderia abandonar o contato com aqueles materiais, procedimentos e, sobretudo, com suas inquietações, que encontraram no processo artístico uma forma pungente de se manifestar. Desde então, assumindo uma postura bastante profissional, Marta impôs a ela mesma um regime espartano de trabalho. Em sua rotina diária, reserva momentos para pensar e processar suas questões, aliando aspectos do campo da arte com a bagagem adquirida na esfera da psicologia. Suas imagens têm emergido deste mergulho introspectivo, interessadas em estabelecer uma cumplicidade com o espectador, buscando nele um participante ativo na construção das imagens, um parceiro com o qual seja possível compartir segredos, momentos de felicidade, intimidades.

Já nos trabalhos iniciais de Marta esse aspecto irrompe, embora de modo contido. É o caso da série Memórias (2001), na qual a artista representa artefatos de expressiva carga simbólica em ambientes herméticos e de penumbra, sobre os quais faz questão de lançar luz, literal e conceitualmente. Nesses espaços impregnados de lirismo e nostalgia, cartões-postais, fotografias, bilhetes, máquinas de escrever, antigos aparelhos fotográficos, cadeiras, caixas e, principalmente, malas, protagonizam silenciosa convivência, remetendo o observador a um desejo de viagem, nem que seja no tempo. Apenas em uma dessas pinturas há a presença da figura humana; nas demais, essa se dá indicialmente, pelos elementos e relações sugeridas, inclusive devido às cores adotadas, remetendo ora ao masculino, em outras tantas ao feminino.

Na série seguinte, Cruzamento de Tempos (2004), o envolvimento do observador é primordial. Formalmente, se por um lado a figura humana se evidencia, de outro as cores desaparecem, dando lugar ao preto-e-branco e a seus nuances. O uso dessa paleta aparentemente reduzida tem razão de ser, primeiro porque, para Marta, a memória é em preto-e-branco e, depois, porque deste modo ela instaura uma analogia imediata e proposital com o seu referente: vetustas fotografias pinçadas de álbuns alheios. A criteriosa seleção das imagens matriciais passou tanto pelo encantamento com situações francamente inusitadas, como pela identificação pessoal com momentos, expressões ou atitudes dos fotografados: aspectos que Marta queria explorar em pintura, sem jamais negar a referência à fotografia e à sua fascinante capacidade de prolongar um momento que efetivamente existiu. Nas obras da série, o tratamento ilusionista impera, alicerçado no desenho minucioso e de viés hiper-realista. Aliás, é digno de nota que, em algumas aquarelas anteriores, Marta fazia questão de provocar a dúvida no observador, ao reproduzir de modo fidedigno fotografias, respeitando, inclusive, o tamanho original e o acabamento usualmente adotado.

Em 2004, quando levou a público o paradigmático conjunto de Cruzamento de Tempos, o arrebatamento veio, notadamente, pela mudança de escala. Das diminutas aquarelas, Marta saltou para imensas telas. Estamos falando aqui de superfícies com cerca de 130 centímetros de altura e 180, 200, 220 centímetros de comprimento. Para quem, até então, havia se voltado preponderantemente aos pequenos e médios formatos, a transformação foi radical. O objetivo da artista era provocar no espectador uma sensação de atualidade, como se fosse possível trazer aquele passado documentado na fotografia para o presente. Ao redimensionar as imagens, dando-lhes um tamanho próximo ao das proporções humanas, Marta sem dúvida promoveu essa revisão e intersecção de tempos, embaralhando as percepções mais imediatistas.

No entanto, em termos conceituais, como já frisou Maria Amélia Bulhões em texto sobre sua obra, o interessante é como a artista estabelece conexões entre as linguagens visuais, discutindo aspectos híbridos da imagem e reafirmando a vigência da pintura na contemporaneidade. Nesse ponto, é imprescindível apontar a filiação artística de Marta, ou pelo menos a sua principal e manifesta referência: a monumental obra do alemão Gerhard Richter (1932). Um dos nomes mais importantes da arte contemporânea internacional, Richter ficou célebre, entre outros, por suas Photo Paintings, idílicas imagens de pessoas, paisagens, interiores e naturezas-mortas, suspensas num tempo insólito e difícil de precisar. De um admirável apuro técnico, as obras de Richter conciliam surpreendentemente abstração e ilusionismo, pintura e fotografia, e chamam a atenção para o modo como essas últimas enriquecem a nossa percepção não somente do passado, mas do cotidiano.

A poética de Marta busca algo semelhante. Em Cruzamento de Tempos, suas pinturas nos engolfam duplamente: pelo tamanho que assumem e pelo estranhamento provocado devido à dilatação de recortes oriundos da fotografia; minúcias que, na imagem original, poderiam ser secundárias, mas que ganham outra amplitude e relevância pela interpretação da artista. Nessas obras, ela esmiúça desde cenas nas quais identifica episódios geralmente comuns de convívio entre as pessoas – como registros de férias na praia, de encontros familiares, de aulas no colégio –, até frações que permitem deduzir perfis e individualidades, que permitem ultrapassar a superficialidade e chegar um pouco mais perto da essência. O detalhe das moças de toalete impecável e pose planejada diante da câmara revela muito sobre elas, assim como, em outras telas, o registro da espontaneidade do gesto ou do seu evidente desconforto também colabora na construção de prováveis personalidades. Ao eleger esses fragmentos, certamente Marta se valeu de seus conhecimentos oriundos da psicologia. Mas precisamos confessar que é igualmente difícil não “se ver” nessas imagens, seja relacionando as expressões e trejeitos com situações vividas, com amigos e familiares, seja imaginando o que completaria ou ampliaria o significado das cenas.

Sobre isso, o historiador da arte Ernst Gombrich nos diz que o principal investimento psicológico das imagens reside em dois planos: reconhecimento e rememoração. O primeiro acentuaria o aspecto da memória e do intelecto, que faz com que saibamos identificar o que estamos vendo ou vivenciando. Já o segundo estaria ligado à apreensão do visível por meio de funções sensoriais. Partindo desse entendimento, Gombrich propõe a expressão “papel do espectador”, designando-o como os atos perceptivos e psíquicos pelos quais o observador, ao perceber e compreender a imagem, faz com que ela efetivamente exista. Significa dizer que não há olhar acidental; a percepção visual funcionaria como uma espécie de sistema que tem como base nosso conhecimento prévio do mundo e das imagens. Ao acioná-lo, o espectador da imagem preencheria também o “não-representado”, os hiatos da representação. É isso o que freqüentemente ocorre diante das obras de Marta. Em Memória VII (série Cruzamento de Tempos), por exemplo, somos convidados a imaginar como seriam os rostos das três personagens femininas sentadas, cada qual com distintos gestos de mãos, pés, pernas, do corpo como um todo. E não apenas somos capazes de intuir suas expressões faciais, como também o tipo de caráter ou personalidade. Seriam a neta, a avó e a mãe? Podemos igualmente nos fazer várias perguntas diante de Memória IV. As sete jovens lado a lado, de pernas e braços cruzados, desprovidas de rostos, estariam rindo, fazendo graça, ou estariam tensas e irritadas pela presença do fotógrafo? Pelas nossas vivências particulares, somos uma vez mais impelidos a preencher essa lacuna, sendo que a nossa relação com a obra será mais ou menos intensa à medida que essas trocas tenham sentido para nós. Assim, da mesma forma que reforçamos os efeitos da imagem, que fazemos com que ela realmente exista, ela também nos reinventa. E aí reside parte nodal do fascínio que temos pelo universo imagético.

Nos trabalhos mais recentes, da série Ao pé do olhar, Marta partiu de fotografias produzidas por ela mesma. As protagonistas são jovens mulheres, aparentando idades entre 18 e 25 anos. A quase totalidade delas desponta dividindo confissões, segredos, momentos de lazer e de intimidade. Compartilham entre si essas experiências, e também o fazem conosco. Parece que podemos ouvir-lhes os cochichos, as risadas, sentir o frescor que lhes acaricia a pele... Na maioria das obras, não podemos ver-lhes os rostos; quando muito, sugestões de perfis. Essa ausência de uma face definida, de uma identidade específica, nem que seja ficcional, convida-nos a projetar nessas figuras qualquer rosto, inclusive o nosso. Uma vez mais, portanto, construímos a imagem e somos por ela construídos.

Já o tratamento formal aplicado é decorrente de Cruzamento de Tempos: foram preservados os recortes inusitados, as grandes dimensões e o uso do preto-e-branco, que confere, junto com a adoção de certos acessórios de época, um visual retró às composições. Um diferencial importante, contudo, está no enquadramento proposto: as fotografias foram tomadas geralmente do chão, voltando-se para o alto. Esse ângulo foi trabalhado por Marta pela primeira vez no conjunto de aquarelas da mesma série, exposto em Portugal no ano passado e inédito no Brasil. Como o próprio título sugere, as imagens jogam a todo instante com um olhar que se lança dos pés ao corpo, ipsis litteris. Explorando grandes superfícies de papel, a artista nos revela cenas de grupos, enfatizando expressões corporais e atestando a concepção manifesta de que o corpo realmente “fala”.

As adolescentes que representa posaram para ela, mas não no sentido de um movimento orquestrado ou definido. Amigas que são, foram convidadas a interagir com naturalidade, tentando esquecer que Marta estava ali, documentando as mais fortuitas situações. A espontaneidade prevaleceu, e é ela que nos seduz de modo inconteste. Em meio às sandálias simples e às saias godês, ao calor que emana dos contrastes entre luzes e sombras, essas moças são flagradas em lépida faceirice, indiferentes à fotógrafa que insiste em registrar-lhes o movimento das pernas, o balanço das saias, a intimidade das calcinhas. Talvez elas estejam conversando, talvez rindo de algo, talvez observando a quebra das ondas junto à praia. Passagens que nada têm de sensacional ou de espetacular. Não há narrativa, qualquer história sendo contada. Apenas o registro de um prazeroso momento fugidio, que o espectador, transformado em voyeur, contempla.

Aspectos similares emanam das pinturas de Ao pé do olhar. E, ao mesmo tempo em que nos arrebatam, pela leveza e graciosidade, incitam-nos a questionar que mundo feminino seria esse. Nos tempos atuais, de erotização precoce e de banalização não apenas da sexualidade, mas das próprias relações afetivas, existiria espaço para esse tipo de intimidade e de conivência? Marta Penter, de modo muito autêntico, quer acreditar que sim.

Foi resgatando o seu processo pessoal de conquista da maturidade, acompanhando o crescimento de suas duas filhas e refletindo sobre o tornar-se mulher que surgiu a motivação para a série. O que Marta discute encontra-se além dos quadros e, entretanto, é através deles que podemos entrever o que se trata. A artista tem consciência disso e toma o conflito como tema. Tal como a moça que se examina diante do espelho, na única das pinturas em que o rosto surge com mais definições, Marta também se interroga. Talvez uma das perguntas seja como suas caprichadas e envolventes representações de felicidade construída podem nos remeter à realidade, podem nos “devolver” ao cotidiano. Cumprirão o seu objetivo nascente de lembrar que a cumplicidade é uma entrega, que a intimidade é uma conquista? Talvez o preto-e-branco, aqui, instigue e potencialize esse devaneio, ao nos proporcionar não o sentimento de um passado que nos encara, mas de um tempo suspenso, de regozijo e de deleite, quem sabe à nossa espera e, também por isso, enigmaticamente nostálgico.


Paula Ramos é jornalista, pesquisadora e doutora em Artes Visuais, ênfase em História, Teoria e Crítica de Arte (UFRGS).

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